Felicidade por um fio e o medo da chuva

No filme “Felicidade por um fio” acompanhamos o drama de Violet, uma mulher que adapta toda a sua rotina em busca da perfeição e esse aspecto pode ser observado especialmente em sua relação com o cabelo, envergonhada de seu cabelo afro, ela não sai de casa sem fazer chapinha e também sem verificar a previsão do tempo, todo esse cuidado a deixa desconectada de sua própria natureza e por essa razão ela transmite aos demais superficialidade. A busca por um relacionamento e um parceiro perfeito também podem ser observadas no filme, fato que retrata a forma como muitas pessoas tem encarado a própria vida e a busca pela felicidade na atualidade. O ser humano tem sido estimulado a encarar a si mesmo como uma empresa e tendo em vista esta compreensão procura evidenciar seus atributos físicos para buscar um parceiro(a) que possa ter atributos e características que ele(a) considera equivalentes ou superiores a sua. Entretanto, essa busca não propicia a busca do essencial para se estabelecer um relacionamento. Mas, antes de comentar sobre a busca por um parceiro, vamos refletir sobre a busca por si, que é a busca que devemos fazer antes de nos engajarmos em um relacionamento. Retomando Violet, podemos lembrar do seu medo da chuva, ela não marcava compromissos ao ar livre sem verificar a previsão do tempo, a chuva faria a mesma entrar em contato com aquilo que ela desejava esconder, seu cabelo e sua natureza. A chuva tem muito a ensinar, a água da chuva passa por um ciclo, é a mesma água que já esteve no rio ou no mar, lugares para os quais posteriormente volta, entretanto, sendo a mesma é também diferente, pois, passou por um processo que a modificou antes que ela pudesse voltar para esse lugar. Assim é também a vida feita de ciclos para os quais precisamos estar abertos, Violet ao perder a conexão com ela própria, não reconhecia mais o que era de fato necessário para a sua felicidade, atormentada por traumas de sua infância, ela não percebeu que a pequena Violet havia crescido e se tornado uma mulher sábia, em outra fase do seu ciclo vital, com recursos para distinguir o que a sociedade esperava dela e o que ela própria necessitava para estar bem. Foi necessário um choque, como o término de seu relacionamento para que ela iniciasse o processo de reconexão com a sua natureza. Por outro lado, após compreender a necessidade de se conectar consigo e percebendo que a  felicidade é também compartilhada ela desejou que outras garotas pudessem exibir seus cabelos sem vergonha ou medo e começou a trabalhar para alcançar esse objetivo. Por fim, ela descobre que a busca pela felicidade é uma trajetória singular e que essa busca deve ser feita diariamente. É como sugeriu Marcelo Jeneci, “quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar”.

O rei está nu? Um conto para crianças ou adultos?

A roupa nova do rei é um conto que relata o caso de um rei muito vaidoso, que após ter sido enganado e acreditando estar vestido com uma roupa que só poderia ser vista por pessoas inteligentes, apresentou-se nu aos demais. As outras pessoas inicialmente fingiram estar vendo a roupa do rei para não contraria-lo, entretanto, uma criança comenta o que os demais negavam-se a fazer, ou seja, o rei estava nu. Dentre as questões que podemos destacar neste conto, vamos priorizar a necessidade de aprovação por parte dos demais e a busca pelo olhar do outro, neste caso o rei vaidoso não mede esforços para ser visto e admirado pelas outras pessoas, seu desejo era que todos comentassem sobre o seu traje. Por outro lado, os súditos observaram que o rei estava nu, entretanto, acompanharam o grupo que fingiu ver a roupa do rei, muitos elogios foram feitos a roupa do rei, pois, soubesse que o mesmo desejava identificar aqueles que não eram inteligentes para destitui-los de seus cargos, a intimidação e a situação contraditória incapacitava as pessoas e impossibilitava uma reação, de forma que todos docilmente seguiam o rei, mesmo que isso significasse negar a forma como observavam a realidade. Tanto o rei quanto os seus súditos, regrediram e apresentaram aspectos infantis, a população submetia-se a um rei que tal como um pai isentava seus filhos da responsabilidade de ver a realidade e agir de acordo com a mesma. Entretanto, quando menos se esperava uma criança, que ainda não estava envolvida com o comportamento que predominava entre a população fez ouvir o óbvio. Ao constatar que havia sido enganado o rei continuou a farsa, a voz da criança se fez ouvir, porém, não foi suficiente para iniciar um processo de mudança no comportamento do vaidoso rei, que por fim atingiu o objetivo de provocar comentários sobre sua vestimenta. Afinal como diz o ditado, falem bem ou falem mal, mas falem de mim.

Madame Bovary e o vazio existencial na atualidade

Madame Bovary romance escrito por Gustave Flaubert e publicado em 1857, retrata o vazio existencial de uma mulher que não se enquadrava no ríspido papel destinado a mulher de sua época. Sentindo-se profundamente desconfortável no papel de rainha do lar, ela negou-se a renunciar a si mesma para fazer o que a sociedade esperava dela. Insatisfeita com o casamento e a maternidade,  tornou-se consumidora de objetos luxuosos e decidiu ter romances que pudessem lhe proporcionar a tão sonhada felicidade que desejava. Porém, passado o fascínio inicial, estes relacionamentos caiam na mesmice, tal qual o seu casamento. Atualmente, a mulher não está mais restrita ao âmbito privado, ela pode decidir casar e ter filhos, ou não, bem como trabalhar, estudar, viajar, entre outros. Entretanto, cabe ressaltar que acompanhando essa liberdade de escolha, nota-se um discurso que tem por finalidade manter a mulher em ríspidos papéis que a limitam, o exagero no culto ao corpo e a obrigação de estar sempre bela servem a este discurso. Por outro lado, o tempo ocioso que levou Madame Bovary ao tédio e ao vazio existencial, cedeu espaço para a constante conectividade e interatividade, o que deixa pouco tempo para a reflexão e o contato com a própria subjetividade, dificultando o autoconhecimento necessário para decidir qual caminho se deseja trilhar. Madame Bovary era uma devoradora de livros, lia romances e fantasiava uma vida perfeita, houve quem dissesse que ela lia, mas lia errado e que a interpretação errônea do que lia proporcionou a mesma devaneios em relação a própria realidade. E você como tem utilizado as redes sociais?

 

O enigma de Kaspar Hauser e a questão da diferença

O enigma de Kaspar Hauser é um filme baseado em uma história real de uma criança que permaneceu em cativeiro até os 16 anos de idade e que posteriormente foi abandonada em um vilarejo, ele sabia pronunciar poucas palavras e não tinha nenhuma referência de família. Ao longo do filme, observa-se o processo de socialização e aprendizagem do mesmo, bem como situações constrangedoras as quais ele foi submetido por ser diferente. Dentre estas situações, vamos destacar duas, a primeira é uma festa na qual Kaspar é apresentado a um homem que deseja auxilia-lo caridosamente, nesta ocasião Kaspar afirma que era mais feliz quando estava no cativeiro, e a segunda é uma cena na qual Kaspar é submetido a um teste para verificar os avanços obtidos em sua escolarização. Nesta cena, um professor questiona Kaspar sobre um assunto em específico e diz ao mesmo que só existe uma saída para resolver a questão, entretanto, Kaspar apresenta uma outra possibilidade ao professor, que refuta a ideia, demonstrando pouca flexibilidade no trato com o aluno. Vamos analisar a primeira cena, Kaspar diz que era mais feliz no cativeiro e causa suspresa nas demais pessoas, este relato incomoda porque demonstra o quanto a sociedade estava despreparada para lidar com a diferença. Descobrir que foi aprisionado por 16 anos, já não é uma questão fácil, soma-se a isso o fato de ter sido tratado como um animal exótico exposto em apresentações. Na segunda cena, observa-se um professor que não leva em consideração as experiências do aluno e que não admite ser contrariado, a fim de impedir que suas velhas certezas sejam postas em dúvida. Kaspar nos aproxima e nos faz olhar para nossas próprias limitações, assim como ele, atualmente outros tantos, tidos como diferentes, o fazem e nos dão a possibilidade de nos reinventarmos e nos conhecermos melhor em contato com a diferença. Entretanto, ainda existem aqueles que preferem não ver que a pluralidade, a alteridade e a diferença são caminhos para que possamos nos aprimorar enquanto seres humanos. Para concluir essa reflexão vamos retomar o enigmático sonho de kaspar: ele relata ter sonhado com camelos e pessoas atravessando um deserto, em certo momento, algumas pessoas acham que o grupo se perdeu, entretanto, este grupo é guiado por um cego que diz aos demais que o grupo não esta perdido e que logo encontrarão a cidade na qual poderão viver, entretanto, Kaspar não sabe como essa história termina. O que você acha? Estaria Kaspar propondo que a sociedade necessita do intermédio de alguém diferente que possa guia-la e mostrar-lhe outras formas de se relacionar com os demais? Será que existe apenas um tipo de cativeiro? Não se pretende esgotar as possibilidades de reflexão sobre o filme, mas instigar o leitor a realizar suas próprias reflexões sobre o filme e a questão da diferença.