O enigma de Kaspar Hauser e a questão da diferença

O enigma de Kaspar Hauser é um filme baseado em uma história real de uma criança que permaneceu em cativeiro até os 16 anos de idade e que posteriormente foi abandonada em um vilarejo, ele sabia pronunciar poucas palavras e não tinha nenhuma referência de família. Ao longo do filme, observa-se o processo de socialização e aprendizagem do mesmo, bem como situações constrangedoras as quais ele foi submetido por ser diferente. Dentre estas situações, vamos destacar duas, a primeira é uma festa na qual Kaspar é apresentado a um homem que deseja auxilia-lo caridosamente, nesta ocasião Kaspar afirma que era mais feliz quando estava no cativeiro, e a segunda é uma cena na qual Kaspar é submetido a um teste para verificar os avanços obtidos em sua escolarização. Nesta cena, um professor questiona Kaspar sobre um assunto em específico e diz ao mesmo que só existe uma saída para resolver a questão, entretanto, Kaspar apresenta uma outra possibilidade ao professor, que refuta a ideia, demonstrando pouca flexibilidade no trato com o aluno. Vamos analisar a primeira cena, Kaspar diz que era mais feliz no cativeiro e causa suspresa nas demais pessoas, este relato incomoda porque demonstra o quanto a sociedade estava despreparada para lidar com a diferença. Descobrir que foi aprisionado por 16 anos, já não é uma questão fácil, soma-se a isso o fato de ter sido tratado como um animal exótico exposto em apresentações. Na segunda cena, observa-se um professor que não leva em consideração as experiências do aluno e que não admite ser contrariado, a fim de impedir que suas velhas certezas sejam postas em dúvida. Kaspar nos aproxima e nos faz olhar para nossas próprias limitações, assim como ele, atualmente outros tantos, tidos como diferentes, o fazem e nos dão a possibilidade de nos reinventarmos e nos conhecermos melhor em contato com a diferença. Entretanto, ainda existem aqueles que preferem não ver que a pluralidade, a alteridade e a diferença são caminhos para que possamos nos aprimorar enquanto seres humanos. Para concluir essa reflexão vamos retomar o enigmático sonho de kaspar: ele relata ter sonhado com camelos e pessoas atravessando um deserto, em certo momento, algumas pessoas acham que o grupo se perdeu, entretanto, este grupo é guiado por um cego que diz aos demais que o grupo não esta perdido e que logo encontrarão a cidade na qual poderão viver, entretanto, Kaspar não sabe como essa história termina. O que você acha? Estaria Kaspar propondo que a sociedade necessita do intermédio de alguém diferente que possa guia-la e mostrar-lhe outras formas de se relacionar com os demais? Será que existe apenas um tipo de cativeiro? Não se pretende esgotar as possibilidades de reflexão sobre o filme, mas instigar o leitor a realizar suas próprias reflexões sobre o filme e a questão da diferença.

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Ana

Sou psicóloga, professora universitária, mestra em psicologia clínica e questionadora de fatos e condições que limitam o ser humano.

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