Além do retalho: Oficinas de sonhos

O que é um retalho? A resposta mais simples é: um pedaço de tecido. Porém, para quem enxerga além um retalho é muito mais que isso. E foram as crianças de um bairro popular em São Paulo que me ensinaram a enxergar além do retalho, foram aquelas pequeninas mãos que me ensinaram a transformar o retalho em delicadas peças, como bonecas feitas à mão. À primeira vista as bonecas podem parecer todas iguais, mas na verdade cada uma carrega algo especial inerente a cada criança, algumas usam um vestido mais colorido e outras nem tanto, algumas apresentam uma expressão mais ou menos alegre, combinando com o humor de quem as produziu.
O retalho e as peças produzidas a partir do mesmo tem duração maior do que o desenho ou a colagem e outras expressões que as crianças também produzem, talvez essa tenha sido a razão pela qual chamaram a minha atenção, é como se aquelas mãos pequeninas reproduzissem através destas bonecas o desejo de permanecer, de chegar a adolescência e a fase adulta da vida e deixar um legado. Não consegui avaliar o quanto estavam conscientes ou não da situação de vulnerabilidade na qual se encontravam, mas para mim a produção daquelas bonequinhas relacionava-se com a situação vivenciada.
Trouxe uma bonequinha para casa, olho para ela e ela me diz algo que não consigo explicar, olho novamente e sinto uma inquietação, penso naquelas mãos pequeninas e agradeço o fato de terem me ajudado e me ensinado a enxergar além do obvio. Na correria do meu dia a dia recupero a sensibilidade ao ver essa bonequinha feita de retalhos. Espero que outros adultos também possam se sentir tocados por esse relato que também surgiu através daqueles retalhos.
Para conhecer mais sobre o projeto social ao qual me refiro e as oficinas na Vila Terezinha acesse: http://institutopedrohenrique.org/
E para colaborar com a vakinha para reforma do local onde ocorrem as oficinas de artesanato, teatro e música, acesse https://www.vakinha.com.br/vaquinha/535820

Alice não sabe se casa ou compra uma bicicleta

Lewis Carroll em 1865, lançou a obra Alice no País das Maravilhas, neste livro uma menina segue um coelho e cai num buraco que a leva a outro mundo, no qual o nonsense é a regra. A partir desta obra surgiram releituras como o filme dirigido por Tim Burton em 2010, neste filme Alice é uma jovem mulher que esta prestes a se casar. Cheia de dúvidas em relação ao seu futuro, ela novamente se vê no país das maravilhas, no qual observa um diálogo entre um coelho e uma flor sobre ela ser Alice certa ou Alice errada.
“Como eu posso ser errada se esse sonho é meu”?. Questiona Alice e para solucionar esta questão ela é levada até Absolem, a lagarta que detém o dom do oráculo e com quem Alice tece diálogos que a fazem refletir sobre quem ela é de verdade. No primeiro encontro entre Alice e Absolem, a lagarta afirma que nem de perto ela é Alice certa. Já no segundo encontro, a lagarta diz que ela está quase perto de ser Alice e no terceiro encontro já fortalecida e pronta para assumir a responsabilidade por suas decisões Alice observa que quem esta passando por uma transformação é Absolem, que torna-se neste momento uma bela borboleta. E é exatamente sobre essas transformações que vamos aprofundar a nossa reflexão.
Alice, como muitas de nós, se viu num momento crucial, ela não tinha certeza sobre seu casamento e ao mesmo tempo observava que a sociedade e sua família desejavam que ela aceitasse esse compromisso, que representava o caminho mais seguro e mais previsível. Sem saber como proceder, ela foge, dando início ao processo de autoconhecimento no qual ela reconhece suas potencialidades e seus desejos.
Já no País das Maravilhas, Alice enfrenta seus medos enquanto reflete sobre certo e errado. Poderia ser mais fácil ignorar suas dúvidas e aceitar o casamento. Mas Alice resolveu ouvir a voz interior e atirou-se no país das maravilhas para enfrentar monstros e conhecer figuras excêntricas. Esta foi uma escolha corajosa e que deu trabalho, desvendar a psique nos faz ver o que queremos e também o lado obscuro da psique.
Inicialmente ela se recusou a cumprir a profecia e afirmou que jamais mataria o Jaguadarte, porém, ao descobrir sua força interior ela cumpre a profecia, permitindo que o símbolo de um tempo de medo e incertezas chegasse ao fim, o que possibilitou a renovação na vida dos habitantes do País das Maravilhas e em sua própria vida, Alice volta pra casa decidida a recusar o casamento e viajar pelo mundo e por fim transformar-se em Alice certa, certa do seu caminho, certa de suas escolhas e dona de si.
Absolem assume a posição que poderia ser de uma mulher mais experiente, ou mesmo de uma psicóloga, provocando Alice para que ela amadureça e ao mesmo tempo sai renovada destes encontros. É uma amiga que toda mulher deveria encontrar, se não na vida real, nos seus sonhos ou em algum lugar dentro de si. E vocês já decidiram se são as Marias, Letícias ou Amandas certas ou erradas? Ou também estão precisando de um empurrão da Absolem?