Alice não sabe se casa ou compra uma bicicleta

Lewis Carroll em 1865, lançou a obra Alice no País das Maravilhas, neste livro uma menina segue um coelho e cai num buraco que a leva a outro mundo, no qual o nonsense é a regra. A partir desta obra surgiram releituras como o filme dirigido por Tim Burton em 2010, neste filme Alice é uma jovem mulher que esta prestes a se casar. Cheia de dúvidas em relação ao seu futuro, ela novamente se vê no país das maravilhas, no qual observa um diálogo entre um coelho e uma flor sobre ela ser Alice certa ou Alice errada.
“Como eu posso ser errada se esse sonho é meu”?. Questiona Alice e para solucionar esta questão ela é levada até Absolem, a lagarta que detém o dom do oráculo e com quem Alice tece diálogos que a fazem refletir sobre quem ela é de verdade. No primeiro encontro entre Alice e Absolem, a lagarta afirma que nem de perto ela é Alice certa. Já no segundo encontro, a lagarta diz que ela está quase perto de ser Alice e no terceiro encontro já fortalecida e pronta para assumir a responsabilidade por suas decisões Alice observa que quem esta passando por uma transformação é Absolem, que torna-se neste momento uma bela borboleta. E é exatamente sobre essas transformações que vamos aprofundar a nossa reflexão.
Alice, como muitas de nós, se viu num momento crucial, ela não tinha certeza sobre seu casamento e ao mesmo tempo observava que a sociedade e sua família desejavam que ela aceitasse esse compromisso, que representava o caminho mais seguro e mais previsível. Sem saber como proceder, ela foge, dando início ao processo de autoconhecimento no qual ela reconhece suas potencialidades e seus desejos.
Já no País das Maravilhas, Alice enfrenta seus medos enquanto reflete sobre certo e errado. Poderia ser mais fácil ignorar suas dúvidas e aceitar o casamento. Mas Alice resolveu ouvir a voz interior e atirou-se no país das maravilhas para enfrentar monstros e conhecer figuras excêntricas. Esta foi uma escolha corajosa e que deu trabalho, desvendar a psique nos faz ver o que queremos e também o lado obscuro da psique.
Inicialmente ela se recusou a cumprir a profecia e afirmou que jamais mataria o Jaguadarte, porém, ao descobrir sua força interior ela cumpre a profecia, permitindo que o símbolo de um tempo de medo e incertezas chegasse ao fim, o que possibilitou a renovação na vida dos habitantes do País das Maravilhas e em sua própria vida, Alice volta pra casa decidida a recusar o casamento e viajar pelo mundo e por fim transformar-se em Alice certa, certa do seu caminho, certa de suas escolhas e dona de si.
Absolem assume a posição que poderia ser de uma mulher mais experiente, ou mesmo de uma psicóloga, provocando Alice para que ela amadureça e ao mesmo tempo sai renovada destes encontros. É uma amiga que toda mulher deveria encontrar, se não na vida real, nos seus sonhos ou em algum lugar dentro de si. E vocês já decidiram se são as Marias, Letícias ou Amandas certas ou erradas? Ou também estão precisando de um empurrão da Absolem?

Entre os muros da escola e os desafios do professor

Professor, eu não aprendi nada”, esta é uma das últimas frases da aluna que interage com o professor no filme “Entre os muros da escola”, obra que retrata o cotidiano de uma escola situada na França. Inspirado no livro do professor François Bégaudeau, o filme aborda as dificuldades vivenciadas por professores e alunos no contexto escolar. Esta obra desmitifica a ideia de que somente no Brasil o cotidiano da escola é complexo e desafiador. Por outro lado, possibilita a identificação com a personagem de François que se depara com situações semelhantes as vivenciadas por qualquer professor. François é um professor que, como tantos outros, não tem respostas prontas para as situações com as quais se depara no exercício de sua profissão, porém, busca alternativas no relacionamento com seus alunos para auxilia-los no processo de desenvolvimento e aprendizagem. Entre acertos e erros podemos destacar a utilização de fotos em uma atividade com seus alunos, percebendo que muitos tinham dificuldades no domínio da língua francesa ele recorre a este recurso para facilitar a adesão a atividade proposta. Retomando a emblemática frase da aluna no final do filme, podemos refletir sobre: pra que serve a educação? Será que se destina a mera reprodução e imitação de conteúdos ensinados em sala de aula?  Se for este o caso, o valor disto será percebido somente no momento da avaliação. Como podemos observar no filme, François se mostra surpreso e contradiz a garota, possivelmente ele estava se referindo ao fato dela ter sido aprovada. Entretanto, quando o valor da educação é reduzido desta maneira, estes ensinamentos tem pouca utilidade para os alunos, daí a conclusão da menina. A aprendizagem é relacional e dialética, o processo não é universal e tanto professor quanto aluno saem modificados deste processo, vale ressaltar também que ambos estão se desenvolvendo e aprendendo, uma vez que este processo não para de ocorrer ao longo da vida. Neste cenário, entre professor e aluno, temos ainda uma parcela da sociedade que trata o professor como uma “persona non grata”, talvez esta parcela, tal qual a garota do filme, também não tenha aprendido nada, não tenha aprendido que a educação é uma janela para o mundo, um espaço no qual diferentes lentes coexistem para se interpretar a realidade e o mundo a sua volta. Porém, como dito anteriormente, ainda há tempo, uma vez que o desenvolvimento e a aprendizagem continuam a ocorrer ao longo da vida e que o ser humano encontra-se em constante movimento. Resta saber se assim como a garota do filme estas pessoas terão humildade para dialogar e ultrapassar os muros que construíram em torno de si.

Felicidade por um fio e o medo da chuva

No filme “Felicidade por um fio” acompanhamos o drama de Violet, uma mulher que adapta toda a sua rotina em busca da perfeição e esse aspecto pode ser observado especialmente em sua relação com o cabelo, envergonhada de seu cabelo afro, ela não sai de casa sem fazer chapinha e também sem verificar a previsão do tempo, todo esse cuidado a deixa desconectada de sua própria natureza e por essa razão ela transmite aos demais superficialidade. A busca por um relacionamento e um parceiro perfeito também podem ser observadas no filme, fato que retrata a forma como muitas pessoas tem encarado a própria vida e a busca pela felicidade na atualidade. O ser humano tem sido estimulado a encarar a si mesmo como uma empresa e tendo em vista esta compreensão procura evidenciar seus atributos físicos para buscar um parceiro(a) que possa ter atributos e características que ele(a) considera equivalentes ou superiores a sua. Entretanto, essa busca não propicia a busca do essencial para se estabelecer um relacionamento. Mas, antes de comentar sobre a busca por um parceiro, vamos refletir sobre a busca por si, que é a busca que devemos fazer antes de nos engajarmos em um relacionamento. Retomando Violet, podemos lembrar do seu medo da chuva, ela não marcava compromissos ao ar livre sem verificar a previsão do tempo, a chuva faria a mesma entrar em contato com aquilo que ela desejava esconder, seu cabelo e sua natureza. A chuva tem muito a ensinar, a água da chuva passa por um ciclo, é a mesma água que já esteve no rio ou no mar, lugares para os quais posteriormente volta, entretanto, sendo a mesma é também diferente, pois, passou por um processo que a modificou antes que ela pudesse voltar para esse lugar. Assim é também a vida feita de ciclos para os quais precisamos estar abertos, Violet ao perder a conexão com ela própria, não reconhecia mais o que era de fato necessário para a sua felicidade, atormentada por traumas de sua infância, ela não percebeu que a pequena Violet havia crescido e se tornado uma mulher sábia, em outra fase do seu ciclo vital, com recursos para distinguir o que a sociedade esperava dela e o que ela própria necessitava para estar bem. Foi necessário um choque, como o término de seu relacionamento para que ela iniciasse o processo de reconexão com a sua natureza. Por outro lado, após compreender a necessidade de se conectar consigo e percebendo que a  felicidade é também compartilhada ela desejou que outras garotas pudessem exibir seus cabelos sem vergonha ou medo e começou a trabalhar para alcançar esse objetivo. Por fim, ela descobre que a busca pela felicidade é uma trajetória singular e que essa busca deve ser feita diariamente. É como sugeriu Marcelo Jeneci, “quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar”.

Madame Bovary e o vazio existencial na atualidade

Madame Bovary romance escrito por Gustave Flaubert e publicado em 1857, retrata o vazio existencial de uma mulher que não se enquadrava no ríspido papel destinado a mulher de sua época. Sentindo-se profundamente desconfortável no papel de rainha do lar, ela negou-se a renunciar a si mesma para fazer o que a sociedade esperava dela. Insatisfeita com o casamento e a maternidade,  tornou-se consumidora de objetos luxuosos e decidiu ter romances que pudessem lhe proporcionar a tão sonhada felicidade que desejava. Porém, passado o fascínio inicial, estes relacionamentos caiam na mesmice, tal qual o seu casamento. Atualmente, a mulher não está mais restrita ao âmbito privado, ela pode decidir casar e ter filhos, ou não, bem como trabalhar, estudar, viajar, entre outros. Entretanto, cabe ressaltar que acompanhando essa liberdade de escolha, nota-se um discurso que tem por finalidade manter a mulher em ríspidos papéis que a limitam, o exagero no culto ao corpo e a obrigação de estar sempre bela servem a este discurso. Por outro lado, o tempo ocioso que levou Madame Bovary ao tédio e ao vazio existencial, cedeu espaço para a constante conectividade e interatividade, o que deixa pouco tempo para a reflexão e o contato com a própria subjetividade, dificultando o autoconhecimento necessário para decidir qual caminho se deseja trilhar. Madame Bovary era uma devoradora de livros, lia romances e fantasiava uma vida perfeita, houve quem dissesse que ela lia, mas lia errado e que a interpretação errônea do que lia proporcionou a mesma devaneios em relação a própria realidade. E você como tem utilizado as redes sociais?

 

O enigma de Kaspar Hauser e a questão da diferença

O enigma de Kaspar Hauser é um filme baseado em uma história real de uma criança que permaneceu em cativeiro até os 16 anos de idade e que posteriormente foi abandonada em um vilarejo, ele sabia pronunciar poucas palavras e não tinha nenhuma referência de família. Ao longo do filme, observa-se o processo de socialização e aprendizagem do mesmo, bem como situações constrangedoras as quais ele foi submetido por ser diferente. Dentre estas situações, vamos destacar duas, a primeira é uma festa na qual Kaspar é apresentado a um homem que deseja auxilia-lo caridosamente, nesta ocasião Kaspar afirma que era mais feliz quando estava no cativeiro, e a segunda é uma cena na qual Kaspar é submetido a um teste para verificar os avanços obtidos em sua escolarização. Nesta cena, um professor questiona Kaspar sobre um assunto em específico e diz ao mesmo que só existe uma saída para resolver a questão, entretanto, Kaspar apresenta uma outra possibilidade ao professor, que refuta a ideia, demonstrando pouca flexibilidade no trato com o aluno. Vamos analisar a primeira cena, Kaspar diz que era mais feliz no cativeiro e causa suspresa nas demais pessoas, este relato incomoda porque demonstra o quanto a sociedade estava despreparada para lidar com a diferença. Descobrir que foi aprisionado por 16 anos, já não é uma questão fácil, soma-se a isso o fato de ter sido tratado como um animal exótico exposto em apresentações. Na segunda cena, observa-se um professor que não leva em consideração as experiências do aluno e que não admite ser contrariado, a fim de impedir que suas velhas certezas sejam postas em dúvida. Kaspar nos aproxima e nos faz olhar para nossas próprias limitações, assim como ele, atualmente outros tantos, tidos como diferentes, o fazem e nos dão a possibilidade de nos reinventarmos e nos conhecermos melhor em contato com a diferença. Entretanto, ainda existem aqueles que preferem não ver que a pluralidade, a alteridade e a diferença são caminhos para que possamos nos aprimorar enquanto seres humanos. Para concluir essa reflexão vamos retomar o enigmático sonho de kaspar: ele relata ter sonhado com camelos e pessoas atravessando um deserto, em certo momento, algumas pessoas acham que o grupo se perdeu, entretanto, este grupo é guiado por um cego que diz aos demais que o grupo não esta perdido e que logo encontrarão a cidade na qual poderão viver, entretanto, Kaspar não sabe como essa história termina. O que você acha? Estaria Kaspar propondo que a sociedade necessita do intermédio de alguém diferente que possa guia-la e mostrar-lhe outras formas de se relacionar com os demais? Será que existe apenas um tipo de cativeiro? Não se pretende esgotar as possibilidades de reflexão sobre o filme, mas instigar o leitor a realizar suas próprias reflexões sobre o filme e a questão da diferença.

Louca, eu?

No filme Garota, interrompida, Susana é diagnosticada como boderline, no fim da adolescência ela apresenta problemas típicos desta fase, entretanto, foi convencida
por seus pais a se internar em um hospital psiquiátrico, o que retrata a incompreensão da sociedade perante o diferente. Mas não podemos julgar os pais de Suzana, estes tão perdidos como tantos outros fizeram o que acreditava ser melhorpara a filha. Vamos voltar para a questão da diferença, o que é ser normal? As questões que afligiam Suzana não eram diferentes das questões de tantas outras garotas, então, será que são todas loucas?
Afinal, quem é normal neste contexto no qual não se suporta a infelicidade, a diferença, a alteridade? Aquele que grita e faz ouvir sua dor ou aquele que não se permite questionar a própria e aparente felicidade? Faço minhas as palavras de Nise da Silveira, felizmente eu nunca convivi com pessoas ajuizadas.

Vagas abertas para Mozão

Muito se fala sobre relacionamentos, mas poucos são os que se atrevem a se comprometer. Há quem culpe as histórias de princesas…será? Vamos
analisar, por exemplo “a Bela e a Fera” Bela, alias, rompe com a ideia de que princesasnão se interessam por cultura, tanto que é uma leitora voraz. A história aparentementetrata de dois seres opostos que se atraem, mas se analisarmos bem, ela trata de conteúdoscontraditórios que cada ser humano traz dentro si e chama a atenção para o fato de que devemos nos relacionar com a “feiura” dentro de nós. Quando fizermos isso vamos compreender que olhar para nossas imperfeições modifica nossa relação conoscoe consequentemente com os que estão a nossa volta. Porém, o que ocorre hoje é queno primeiro sinal de dificuldade se projeta no outro a própria sombra, responsabilizando-o pelo fato do relacionamento não ser perfeito como se esperava. Vamos voltar a falarde Bela e a Fera, no conto a Fera aprende a se relacionar com os próprios aspectos femininos, os quais negligenciava e Bela resolve o complexo do Édipo se abrindo para um relacionamentoamoroso, ambos com ajuda e compreensão do outro. Mesmo assim, uma colega me disse que proibiu sua filha de ler histórias de princesas, para que a mesma não sonhasse com um príncipe encantado, mas Bela não obteve o relacionamento esperado sem que houvesse inicialmente amadurecimento pessoal tanto dela quanto da Fera, ela mesma canta em um certo momento: “ele foi bom e delicado, mas era mal e era tão mal educado, comoele esta mudado” o que reflete também a mudança dela. Será mesmo que a culpaé das princesas? Ou seria de quem não consegue admitir suas próprias imperfeições? Alguma coisa acontece quando se olha pra dentro de si?