Além do retalho: Oficinas de sonhos

O que é um retalho? A resposta mais simples é: um pedaço de tecido. Porém, para quem enxerga além um retalho é muito mais que isso. E foram as crianças de um bairro popular em São Paulo que me ensinaram a enxergar além do retalho, foram aquelas pequeninas mãos que me ensinaram a transformar o retalho em delicadas peças, como bonecas feitas à mão. À primeira vista as bonecas podem parecer todas iguais, mas na verdade cada uma carrega algo especial inerente a cada criança, algumas usam um vestido mais colorido e outras nem tanto, algumas apresentam uma expressão mais ou menos alegre, combinando com o humor de quem as produziu.
O retalho e as peças produzidas a partir do mesmo tem duração maior do que o desenho ou a colagem e outras expressões que as crianças também produzem, talvez essa tenha sido a razão pela qual chamaram a minha atenção, é como se aquelas mãos pequeninas reproduzissem através destas bonecas o desejo de permanecer, de chegar a adolescência e a fase adulta da vida e deixar um legado. Não consegui avaliar o quanto estavam conscientes ou não da situação de vulnerabilidade na qual se encontravam, mas para mim a produção daquelas bonequinhas relacionava-se com a situação vivenciada.
Trouxe uma bonequinha para casa, olho para ela e ela me diz algo que não consigo explicar, olho novamente e sinto uma inquietação, penso naquelas mãos pequeninas e agradeço o fato de terem me ajudado e me ensinado a enxergar além do obvio. Na correria do meu dia a dia recupero a sensibilidade ao ver essa bonequinha feita de retalhos. Espero que outros adultos também possam se sentir tocados por esse relato que também surgiu através daqueles retalhos.
Para conhecer mais sobre o projeto social ao qual me refiro e as oficinas na Vila Terezinha acesse: http://institutopedrohenrique.org/
E para colaborar com a vakinha para reforma do local onde ocorrem as oficinas de artesanato, teatro e música, acesse https://www.vakinha.com.br/vaquinha/535820

Aplicativos de namoro e o cheiro do outro

Foi num sábado, em uma conversa bem humorada com as amigas que descobri o “Adote um cara”, aplicativo de encontros, curiosa e solteira novamente, resolvi me inscrever. Coloquei vários caras no carrinho, mas com o passar dos dias não parecia tão atraente. Entre corpos malhados e sorrisos encantadores e alguns nem tanto assim, faltava algo. A internet e as redes aproximam, mas a selfie ainda é pouco. Neste mundo pós-digital tornou-se fácil e rápido encontrar parceria para encontros e relações superficiais, porém, resta a dúvida sobre como sensualizar no aplicativo.

Cresci numa família privilegiada, na qual o cheiro tinha um valor, um significado. Em época de procissão minha vó providenciava ramos de plantas cheirosas para que as crianças levassem junto ao cortejo. O cheiro verde, a hortelã e o manjericão não faltavam na cozinha. E o cheiro depois do banho? Ou o cheiro como lembrança? Posso me lembrar das pessoas dizendo: Diz ao fulano que eu mandei um cheiro. O cheiro é essencial também no encontro com o outro, e podemos detacar ainda, o olhar, a forma como toca o cabelo. Como ver e sentir isso nas selfies? Tudo bem que em geral as pessoas se esforçam postando selfies dos mais diversos ângulos e formas, mas a dúvida permanece.  A sexualidade na era pós-digital é vivenciada de forma mais individualizada, não é a toa que algumas pesquisas tem demonstrado que os jovens estão transando menos. E se eles que são nativos digitais transam menos, como estão os demais que ainda estão se adaptando a essa realidade? Pensando neste assunto lembrei da Rita Lee: “sexo é aquilo. É coisa e tal. É tal e coisa…”  

Arthur Bispo do Rosário e os beija-flores

Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), foi paciente psiquiátrico por vários anos, ele aguardava a chegada de Deus e escreveu o nome de pessoas queridas em algumas peças que produziu. Era seu desejo interceder por essas pessoas diante do criador. As obras que este artista produziu com objetos do cotidiano, aos quais tinha acesso na instituição onde esteve internado, ganharam notoriedade internacional e ofuscaram sua história. Em certa ocasião ele disse: “os doentes mentais são como beija-flores, nunca pousam, ficam a 2 metros do chão”. Ou seja, a realidade deles é diferente da realidade dos “ditos normais”. Mesmo tendo o seu direito de ir e vir restringido Arthur Bispo encontrou uma maneira de voar e compartilhar com o mundo a riqueza de sua vida interior, retratada nas obras que produziu. Infelizmente, quando confinados muitos não conseguem encontrar meios para voar tal como ele fez, afinal, beija-flores não foram feitos para serem aprisionados. Uma lenda maia conta que o beija-flor foi criado a partir de uma pedra de jade e que são portadores de mensagens do além, isto vai ao encontro do que pensava Bispo, que afirmava ouvir vozes que lhe diziam o que ele deveria fazer. Desta forma, ao refletir sobre o tratamento que deve ser destinado aos doentes mentais, é essencial lembrar da mensagem de Bispo, os doentes mentais são como beija-flores, restringir a liberdade dos mesmos, não está de acordo com a sua natureza e em nada ajudará a minimizar as dificuldades que vivenciam.  E então, vocês viram algum beija-flor por aí? Se viram, não tenham medo e não permitam que possam ser aprisionados, deixem que voem e espalhem mensagens especiais pelo mundo. #manicômiosnuncamais

O rei está nu? Um conto para crianças ou adultos?

A roupa nova do rei é um conto que relata o caso de um rei muito vaidoso, que após ter sido enganado e acreditando estar vestido com uma roupa que só poderia ser vista por pessoas inteligentes, apresentou-se nu aos demais. As outras pessoas inicialmente fingiram estar vendo a roupa do rei para não contraria-lo, entretanto, uma criança comenta o que os demais negavam-se a fazer, ou seja, o rei estava nu. Dentre as questões que podemos destacar neste conto, vamos priorizar a necessidade de aprovação por parte dos demais e a busca pelo olhar do outro, neste caso o rei vaidoso não mede esforços para ser visto e admirado pelas outras pessoas, seu desejo era que todos comentassem sobre o seu traje. Por outro lado, os súditos observaram que o rei estava nu, entretanto, acompanharam o grupo que fingiu ver a roupa do rei, muitos elogios foram feitos a roupa do rei, pois, soubesse que o mesmo desejava identificar aqueles que não eram inteligentes para destitui-los de seus cargos, a intimidação e a situação contraditória incapacitava as pessoas e impossibilitava uma reação, de forma que todos docilmente seguiam o rei, mesmo que isso significasse negar a forma como observavam a realidade. Tanto o rei quanto os seus súditos, regrediram e apresentaram aspectos infantis, a população submetia-se a um rei que tal como um pai isentava seus filhos da responsabilidade de ver a realidade e agir de acordo com a mesma. Entretanto, quando menos se esperava uma criança, que ainda não estava envolvida com o comportamento que predominava entre a população fez ouvir o óbvio. Ao constatar que havia sido enganado o rei continuou a farsa, a voz da criança se fez ouvir, porém, não foi suficiente para iniciar um processo de mudança no comportamento do vaidoso rei, que por fim atingiu o objetivo de provocar comentários sobre sua vestimenta. Afinal como diz o ditado, falem bem ou falem mal, mas falem de mim.

Adeus Ano Velho

Ahhh! Ano Novo venha. Ano Velho vá e leva consigo meu desejo incontrolável de comer chocolate. Não quero ser indelicada, mas leva na mala também a falta de tempo para meditar e a avareza de quem não sabe compartilhar. Na bagagem de mão, acrescenta a mágoa surgida a partir de relações que não terminaram tão bem assim. Numa valise bem reforçada, a inveja daquela vizinha mal amada. Eu sei, você já esta com as malas cheias, mas encontre um cantinho e não esqueça do orgulho que tanto atrapalha os casais que se amam e da ira que azeda os corações. A preguiça, essa bem poderia ficar, porque de tão preguiçosa ela ainda esta esperançosa de poder permanecer, só pra não ter o trabalho de se mexer. Mas, pensando bem é melhor desapegar, leva a preguiça também. Ano novo traga apenas o que puder carregar e em abundância traga a esperança! Que esta sim, venha para ficar!

 

Como fica o relacionamento nas redes sociais depois que o amor acaba?

Quem não esta na rede não é lembrado. Será que por isso meu amigo e a ex mulher dele resolveram discutir a separação pelas redes sociais? Creio que não só eu, mas todos estão cansados de ver os xingamentos diariamente. Na busca incansável por curtidas, ambos expõem os filhos e não se cansam de postar fotos em baladas com bebidas e boas companhias. E se alguém dá um like na foto de um dos dois, acaba sendo envolvido, cobrado ou excluído. Na busca insana por curtidas a saúde psíquica, a relação com os filhos e com os amigos fica pra depois. Afinal na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, no casamento ou no divórcio, a gente quer curtidas!

Adolescência: fase difícil?

No final do ano passado uma menina de 12 anos tirou a própria vida por estar infeliz com o seu corpo. Aos 12 anos as garotas deveriam ter esse tipo de preocupação? O que podemos aprender com essa situação? Estamos todos tão preocupados em nos manter jovens e sedutores, gastamos horas nos enfeitando para postar uma foto nas redes sociais, como se esta tivesse sido tirada ao acaso. Corpos esculturais ou nem tanto, exibidos diariamente na rede. E as crianças vão ficando pra mais tarde. Os adultos tão felizes em se manter jovens, esquecem que quando todos querem ser jovens, há um
descompasso, quem vai cobrar o dever da escola ou desligar o celular para conversar com a filha? Hum…é melhor perguntar quem vai postar uma foto nas redes sociais, com filtro é claro.
Afinal o que seria de nós sem a magia do filtro.